segunda-feira, dezembro 04, 2017

“CONDIÇÕES DE TRABALHO DESUMANAS”

Eis a denúncia das condições de trabalho numa fábrica chinesa de brinquedos. As civilizações no mundo avançam, impreterivelmente em certos aspectos, para melhor. O ser humano adquiriu o direito incontestável á própria dignidade e ao respeito a ela devido. Porém, e infelizmente, nem em todas as partes deste nosso mundo se verifica tal realidade.

Vejamos o que a tal respeito escreve Franco Zantonelli no jornal La Repubblica em 03 de Dezembro, 2017:

“Não comprem aqueles brinquedos!” A poucas semanas do Natal, uma ONG suíça (Solidar Suisse), adverte os pais para que não ofereçam aos filhos as Barbies de Mattel, os G.I Joe de Hasbro e os brinquedos de Disney fabricados na China, em virtude das condições de trabalho, no limite do esclavagismo, nas quais seriam constrangidos a trabalhar os operários encarregados de fabricar aqueles produtos.

“Não posso deixar a cadeia de montagem parada por mais de três minutos, a fim de ir à casa de banho” – o testemunho de um trabalhador recolhido ONG helvética, em colaboração com os colegas chineses de China Labor Watch.

O que as nossas crianças encontram na Árvore de Natal, muito frequentemente tem, dentro de si, a miséria e a exploração: denúncia de Solidar Suisse.
Situações intoleráveis que se traduzem em semanas laborativas de 100 horas, retribuídas com salários insuficientes para uma vida vivida com dignidade. Além disso, quem está empenhado neste tour de force, durante 6 dias por semana, é constrangido a dormir em espaços estreitos, na maior parte das vezes uns em cima dos outros, postos à disposição pela fábrica para quem trabalha.

Se não bastasse a fadiga e o stress, a piorar as condições de vida destes infelizes pensam as substâncias químicas utilizadas durante os diversos momentos da produção. “Os nossos olhos estão muitas vezes irritados”, confessa um encarregado da cadeia de montagem.
Isto, na Suíça, mas o discurso estende-se a outros países: dois brinquedos em três são produzidos naquele inferno.

O problema – explica a La Repubblica Lionel Frei, porta-voz da ONG suíça – é que aqueles brinquedos não têm uma etiqueta que garanta métodos de fabricação aceitáveis. Por consequência, quem os adquire, embora com as melhores intenções, corre o risco de se tornar cúmplice de um sistema produtivo no limite da escravidão.

Melhor então, segundo Solidar Suisse, abandonar os produtos das multinacionais que se servem na China e adquirir brinquedos de madeira, talvez usados, na feira da ladra. Além disso – diz ainda Frei – em vez de oferecer brinquedos, poder-se-ia estimular as crianças para uma actividade alternativa, tal como a bricolagem, o desenho e, porque não, a passeios salutares na natureza.”   
Franco Zantonelli; La Repubblica, 03 / 12 / 2017

    

segunda-feira, novembro 27, 2017

Na Austrália, no incrível lago de Deus que resiste às variações climáticas de há mais de sete mil anos

Resultado de imagem para foto do lago australiano Blue Lake
AUSTRÁLIA  - BLUE LAKE
Como mãe-natureza o fez. O Blue Lake de North Stradbroke Island, ilha australiana do Queensland, é considerado um dos lugares ainda incontaminados do planeta. Em sete mil anos, este espelho de água não sofreu os efeitos das mudanças climáticas: uma peculiaridade tão única que lhe fez conquistar o apelido de “Banheira de Deus”

Os investigadores da Universidade de Adelaide descobriram que o lago a sudeste de Brisbane ficou relativamente estável e resistente por milénios, diferentemente dos seus símiles que nos últimos 40 anos se dessecaram.
O Blue Lake é um dos raros, belíssimos lagos na Austrália. Mas só nos apercebemos de quanto fosse único e insólito quando começámos a analisar uma vasta gama de indicadores ambientais” – afirmou o Dr. Cameron Barr   

 Os cientistas estudaram, em primeiro lugar, a qualidade da água e confrontado as fotos históricas dos últimos 117 anos. Depois, surpreendidos com os resultados, prosseguiram as investigações, analisando também fósseis de pólen e algas, desvelando a incrível estabilidade do lago nos últimos setenta séculos.


A única mudança, pequena, foi registada há cerca de 4 mil anos, quando o clima daquela zona da Austrália se tornou efectivamente mais seco. Mas também naquele caso, o Blue Lake demonstrou não ser influenciável, em claro contraste com outras variações na região. Todavia, ninguém sabe por quanto tempo ainda este lago sobreviverá ás mudanças geradas pelo homem. Porém, há esperança que poderá custodiar as suas peculiaridades “divinas” ainda por milhares de anos. - De Noemi Penna; La Stampa - 27 / 11 / 2017  

terça-feira, novembro 21, 2017

DIA DOS DIREITOS DA INFÂNCIA

No dia 20 de Novembro, celebra-se, em todo o mundo, o “Dia dos direitos da infância e da adolescência”.
Referindo-me à situação actual da Itália, descrita num artigo de Paolo G. Brera, no jornal La Stampa – 20/11/2017, creio que apresente um panorama que não deve diferir muito do que se passa no nosso País. Mas oxalá esteja enganada. 
É uma leitura interessante, embora infunda um sentimento de tristeza. 
Traduzo:

"Um Milhão e 400 mil crianças italianas em absoluta pobreza"
 “O mundo celebra hoje o Dia dos direitos da infância, mas na Itália é uma data difícil a festejar. »Os nossos últimos dados – diz Raffaela Milano de Save the children – mostram uma situação de miséria no que concerne a pobreza dos menores. Temos 1,4 milhões de crianças e adolescentes que vivem abaixo do limiar da pobreza absoluta, e este número assustador cresceu 14% apenas num ano.

Porém, não se trata apenas de más notícias: «Felizmente, a intervenção pública - explica ainda Rafaela Milano – pôs em acção providências como o rendimento de inclusão e o fundo de contraste à pobreza educativa, as quais se focalizam, precisamente, nas famílias com menores». Porque o problema é que a pobreza económica “significa menores que abandonam os estudos, em jovens que não lêem livros e não têm acesso à cultura. Deste modo, acaba-se por prejudicar o inteiro desenvolvimento do país em termos de capital humano”.

Mas os números enormes sobre a pobreza tornam-se ainda mais impressionantes se aliados aos da queda demográfica. “De 1961 a hoje, perdemos 4 milhões de crianças: um terço dos alunos da escola obrigatória já não existe”. As crianças diminuíram; os que existem, em vez de melhorar, estão com dificuldades ainda maiores. “Nós que estamos activos nas zonas mais difíceis do país – diz ainda Rafaela Milano – dia a dia vemos situações verdadeiramente alarmantes”.

Algo de importante, pelo contrário, foi feito em relação às crianças estrangeiras, não acompanhadas, que chegam à Itália. Segundo as referências de «Save the Children», são 18 mil as crianças seguidas nos nossos centros de acolhimento, “mas este ano foi promulgada a nova lei que cria, para eles, um sistema de protecção, marcando uma verdadeira mudança. Embora a lei ainda deva ser plenamente actuada, mais de 2600 adultos ofereceram-se como ponto de referência educativo para estes jovens, de uma maneira totalmente voluntária e gratuitamente."

Mesmo que alonguemos o nosso olhar pelo mundo inteiro, a situação permanece muito difícil. Segundo um estudo da UNICEF, efectuado em 37 países e uma sondagem sobre 11 mil crianças entre os nove e os 18 anos em 14 países, 180 milhões de crianças enfrentam perspectivas piores, relativamente aos seus pais: uma criança em 12 vive em países cujo futuro promete ainda menos do já pouquíssimo oferecido no passado. Em 14 países, entre os quais Benim, Camarões, Madagáscar, Zâmbia e Zimbabué, aumentou a percentagem das crianças constrangidas a viver com menos de dois dólares por dia.

Sempre segundo os dados UNICEF, as mortes por causas violentas entre as crianças e os adolescentes abaixo dos 19 anos aumentaram em sete países. 73% das crianças na África Meridional pensa que não é ouvida por ninguém. E 45% das crianças em 14 países não têm nenhuma confiança nos líderes nacionais ou mundiais e nenhuma esperança de obter progressos. Se a ajuda não chega de fora, a pobreza deslizará sempre mais para o fundo: entre crises financeiras, guerras e sobre-população, a inscrição na escola primária baixou em 21 países  -  De Paolo G. Brera; La Repubblica - 20 Novembro 2017 

segunda-feira, novembro 13, 2017

O CALVÁRIO DOS MIGRANTES

Nel ghetto libico dei trafficanti di uomini: la foto dell'orrore. E' caccia al feroce generale Alì
No gueto líbio dos traficantes de homens: a foto do horror

Na contínua imigração dos povos que afluem à Europa, quanto sofrimento e quantas agruras devem enfrentar antes de pôr pé em solo europeu! O primeiro país onde a maior parte destes migrantes desembarca é a Itália, obviamente.

Num artigo de Francesco Patanè e Alessandra Ziniti, tomemos conhecimento dos amargos testemunhos de setes destes desafortunados migrantes.

No gueto líbico dos traficantes de homens: a foto do horror. É caça ao feroz general Alì.

“Em sete, saídos vivos do Gueto de Sabha, a prisão mais assustadora dos traficantes de seres humanos na Líbia, tiveram a coragem de colaborar com a polícia e a magistratura italianas, acusar e reconhecer alguns dos seus carcereiros e, agora, ajudar os investigadores na caça ao feroz “general Alì”. Este é o chefe dos milicianos que administram o forte nos confins do deserto e no qual são mantidos prisioneiros centenas de migrantes, constrangidos a suportar torturas e violências atrozes para que implorem às famílias mais dinheiro como resgate para a sua libertação.”

“Pela primeira vez, uma fotografia, proveniente do Gueto de Alì, entra a fazer parte dos actos do inquérito coordenado pelo procurador adjunto da DDA (Direcção Distrital Antimáfia) de Palermo, Marzia Sabella, e entregue aos procuradores substitutos, Geri Ferrara e Giorgia Spiri, o que já levou, há alguns meses, à individuação, em dois centros de acolhimento italianos, dois dos carrascos do centro de detenção, detidos e agora sob processo. “

“Num incidente probatório, os sete migrantes que colaboram reconfirmaram as suas acusações em relação aos seus carcereiros, apresentando provas chocantes, entre as quais as fotos guardados nos seus telemóveis enviadas às famílias do que acontece dentro daquele fortaleza inacessível, defendida por arame farpado e guardas armadas de kalashnikov.
 “
“E pela primeira vez foi também foi apresentada uma descrição do misterioso general Alì: árabe, escuro, cabelos compridos, manquejante e ombros descidos, nem jovem nem velho. Habitaria numa vivenda na colina que domina o gueto, às portas da cidade de Sabha. E agora, a Direcção Distrital de Palermo deu início à caça ao homem com a colaboração dos serviços de segurança.”

“São dramáticos os testemunhos dos sete migrantes sobreviventes que viram matar e estuprar, mulheres e crianças morrer de fome e ser lançadas fora em sacos da imundície.
A abrir a estrada da colaboração foi um jovem nigeriano: «No meu país estudava direito e sei que a tortura é um crime reconhecido em todo o mundo. Por este motivo, quando cheguei a Lampedusa, imediatamente decidi denunciar tudo à polícia»” - de Francesco Patanè e Alessandra Ziniti: La Stampa – 13 Novembro 2017

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É arrepiante ler e imaginar o calvário desta pobre gente! E. aqui, o sentido de pobre refere-se à dureza e amargura de dever emigrar; na maior parte dos casos, em busca de um futuro mais prometedor    

terça-feira, novembro 07, 2017

 “AVEIRO, A VENEZA DE PORTUGAL”

A jornalista Lívia Fabietti escreveu, no jornal La Stampa, um artigo sobre a “risonha cidade portuguesa”, isto é, Aveiro. Uma descrição linda e atractiva.
E quando leio, na imprensa estrangeira, algo que enaltece o que quer que seja de Portugal, impõe-se-me a transcrição neste espaço. E sendo assim, vejamos as opiniões da Sra. Fabietti:

«A vida é uma grande tela, e deverias derramar sobre ela todas as cores que podes» - disse Danny Kaye. As cores, todavia, não são apenas as que se encontram nas telas dos pintores. Estão em todo o lado e têm um grande poder: raptam os olhos e a mente. Sabem-no bem os viajadores, e não somente porque mitigam a sede de ocasiões para a máquina fotográfica. Encantam, oferecendo simplesmente agradáveis sensações.
Em Aveiro, pitoresca cidade situada na parte centro-setentrional de Portugal, os motivos são tantos (e coloridos) que permitem enamorar-se desta realidade ainda estranha ao turismo de massa."

Aveiro, a Veneza de Portugal. A impressionar, em primeiro lugar, é a sua espessa rede de canais que lhe permitiu ganhar o apelativo de Veneza de Portugal. Assim como a bela lagunar tem as suas gôndolas, Aveiro tem os «moliceiros», variegadas embarcações de madeira reavivadas (tanto a popa como a proa) da presença de alegres desenhos e ditos populares. Se, no passado, eram usadas para a recolha de uma planta aquática conhecida como «moliço», hoje estes barcos são um meio de transporte apreciado pelo turismo fluvial.

"Um passeio a bordo é necessário. Permite viajar no tempo e admirar a cidade através de outra perspectiva. A fim de alargar os horizontes, é possível tomar parte num dos tantos percursos que permitem descobrir, amplamente, a Ria de Aveiro.
«É um corpo vivo que une a Terra ao mar como um imenso coração» - assim a definiu o escritor português José Saramago. É uma dimensão mágica que encanta, sobretudo os amantes do birdwatching, visto que é o habitat natural de inúmeras aves. Podemos admirar flamingos, garças e exemplares de espécie protegida como, por exemplo, a garça vermelha."

Dizer Portugal significa falar também dos seus azulejos, os típicos ladrilhos em cerâmica gradas á arquitectura português que vestem (principalmente) de branco, amarelo e de azul muitos dos seus edifícios citadinos como os da estação, onde admirar a maior colecção ao ar livre de azulejos de Aveiro.

Na Costa Nova do Prado as casas estão em fila: os «palheiros». Segundo parece, os moliceiros não são a única característica de cor que atrai os turistas. Ao longo da costa, quando chegamos a Costa Nova do Prado, descobre-se uma localidade balnear pitoresca, famosa pelos seus «palheiros»: impossível não notá-los e, sobretudo, não ficarmos encantados.

As casinhas, alinhadas umas junto às outras, foram construídas no séc. XIX e foram utilizadas pelos pescadores como depósito para guardar as redes e outros apetrechos de trabalho. Difícil acreditar, mas, a dizer pouco, as que hoje têm um aspecto de fábula, inicialmente eram muito modestas. Quando o turismo iniciou a tomar forma despiram-se do seu aspecto espartano de palha e canas para se transformarem em habitações de grande impacto visual. A destacar-se, efectivamente, são as linhas verticais das fachadas coloridas, ora de um vermelho vivaz ou de um aceso amarelo ou, ainda, em azul e verde. Pura poesia”.  -  Livia Fabietti - La Stampa, 03 / 11 / 2017

segunda-feira, outubro 30, 2017

ASTROLÁBIO DE VASCO DA GAMA: “O MAIS ANTIGO INSTRUMENTO DE NAVEGAÇÃO NO MUNDO”


E como sempre, quero registar neste blogue um evento que diz respeito á nossa rica História dos Descobrimentos e do qual tomei conhecimento através do jornal italiano “La Repubblica”.

«Encontrado um astrolábio das naves de Vasca da Gama. “É o mais antigo instrumento de navegação no mundo”»

Quando os mergulhadores o encontraram debaixo das areis, nas profundidades do mar de Oman, estavam certos de ter descoberto qualquer coisa de precioso, mas não certos que fosse assim tão raro.
Aquele astrolábio, datável entre 1495 e 1500, é efectivamente o mais antigo instrumento de navegação do mundo.

O disco, com o diâmetro de 17,5 cm, no passado era utilizado para medir a altura do sol durante as grandes viagens explorativas das naves. Este achado, descoberto em 2014 pela missão conduzida por David Mearns, acredita-se que tivesse pertencido precisamente à nave Esmeralda, uma das embarcações da expedição do célebre navegador português Vasco da Gama, o primeiro a navegar da Europa à Índia.

A Esmeralda naufragou durante uma tempestade no Oceano Índico em 1503, ao largo das costas de Oman.
Há três anos, os arqueólogos marinhos recuperaram cerca de 3.000 achados arqueológicos diferentes, entre os quais o precioso astrolábio.
“É verdadeiramente um grande privilégio encontrar qualquer coisa assim rara; algo historicamente tão importante que será estudado pela comunidade arqueológica” – disse Mearns à BBC.

O disco, espesso pouco menos de 2 milímetros, “tinha dois emblemas significativos, notados logo que o recuperámos” – explica.
Um, imediatamente reconhecido, era um estema português; enquanto o outro era o símbolo pessoal de D. Manuel I, rei de Portugal. Este estema também foi fundamental para datar o objecto à volta de 1500,

Após anos de investigações sobre estes achados arqueológicos, hoje o trabalho de escanção laser, executado pela Universidade de Warwick, decretou definitivamente que o manufacto é, realmente, um astrolábio da época: graças ao scanner foram efectivamente individuadas linhas e traços sobre o disco, separadas de 5 graus, que serviam para medir a altura do Sol durante a navegação e para determinar, portanto, a posição da nave no mar.

Segundo a emissora britânica, os achados de astrolábios são raríssimos, tanto assim que, até hoje, somente 108 peças foram recuperadas e catalogadas. Esta última, portanto, seria a mais antiga entre os astrolábios encontrados.

“Sabemos que deveria ter sido realizada antes de 1502, porque foi então que a nave deixou Lisboa. E sabemos que D. Manuel não era rei antes de 1495: o astrolábio nunca ostentaria o emblema antes de ser coroado. Por conseguinte, cremos que seja datável entre 1495 e 1500, embora desconheçamos o ano exacto”.
“Agora – conclui entusiasta Mearns – oxalá consigamos encontrar outros”.

Giacomo Talignani;  La Repubblica – 25 Outubro 2017 

segunda-feira, outubro 23, 2017

Até onde chega a ignorância e superstição
Até onde chega o amor pelos animais


Qualquer notícia ou crónica lida nos jornais italianos, consultados diariamente, aquelas que mais captam o meu interesse ou curiosidade reservo-as  para as transcrever neste blogue, embora não todas, obviamente. É um modo de exprimir ou acentuar esse mesmo interesse, agora em língua portuguesa.
 E quando esses factos envolvem animais, o interesse duplica.

Bem, vejamos o que descreve um artigo do jornal La Stampa sobre gatinhos que privilegiam cirandar por lugares sacros às nossas memórias.

 Título: “Os gatos vivem num cemitério, uma família acusada de ter feito um pacto com o diabo

“Vagueiam pelas veredas e, frequentemente, deitam-se em cima dos túmulos para preguiçar sem perturbar o silêncio do local.
São muitos os gatos que vivem no cemitério de Santa Cruz de Mompox, uma municipalidade colombiana também citada pelo escritor Gabriel Garcia Marquez, prémio Nobel da Literatura 1982.

Mas a presença dos gatos também tem alimentado vozes e lendas. Quem paga as consequências de tal facto é uma família que foi acusada de ter feito um pacto com o diabo. Isto porque parece que os felinos preferem mover-se onde se encontram os túmulos dos seus familiares.

Todavia, esta família, os Serrano, não aparentam ofender-se. “Não nos importa que digam que temos um acordo com o diabo. Pelo contrário, para nós é uma espécie de reconhecimento”, diz o cirurgião Victor Serrano a um jornal local, sentado na sua cadeira de baloiço.

Tudo começou com um luto que atingiu a sua família: a morte de Alfredo, o seu filho mais novo, vítima de um enfarte aos trinta e três anos.
Alfredo, na cidade, era conhecido como o “Gato”, uma alcunha herdada do seu avô paterno que, como ele, tinha olhos verdes. A mesma cor dos olhos de uma gata preta que, nos dias sucessivos ao funeral, começou a cirandar perto da sua tomba.
Pouco depois, a gata pariu os seus gatinhos e decidiu que aquele lugar seria a sua casa. Poucos dias depois chegaram outros gatos, contribuindo para alimentar o mito de “feitiçaria” e de “pacto com o diabo”.

«Muitas pessoas de Mompox quiseram dar um tom de mistério a esta história, porque tudo aconteceu num cemitério» - explica a guia turística Luís Dominguez – mas, na realidade, é só um gesto de amor dos genitores para recordar o filho”.

E os Serrano fazem-no seriamente, tomando conta destes gatos negros, brancos e cor alaranjada: alimentam-nos e esterilizam-nos para evitar que o seu número cresça demasiado. Um amor que ultrapassa os boatos populares."
 Fulvio Cerutti, La Stampa - 22/10/2107