domingo, abril 02, 2006

LEI DA PARIDADE

Nome de lei pouco eufónico!

Os projectos – do PS e BE – serão examinados, discutidos e aprovados, visto haver maioria dos proponentes.

Mas não é a aprovação desta lei de “paridade democrática” que mais desperta o meu interesse, embora mereça aplausos. Despertam mais a minha atenção, isso sim, os argumentos de quem se opõe ou, pelo menos, de quem apresenta objecções.

A objecção primeira – e talvez única – refere-se ao mérito.
Não é necessário estabelecer quotas, pois quem tem méritos e queira dedicar-se à política, com toda a normalidade será Presidente da República, Primeiro-ministro, Ministro dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna e quejandos – para só enumerar os mais acessíveis!..
Penso seja este o pensamento de quem aborrece as quotas e privilegie o mérito. Evidentemente que me refiro aos méritos da outra parte do céu, isto é, nós, as mulheres.
Para a outra parte, os homens, apenas se lhes exige que saiba ler e escrever. Não quero dizer que, apenas com estas habilitações literárias, possa chegar às cimeiras; mas pode ter sempre lugar na Assembleia da República.

A aceitação e reconhecimento desses méritos correspondem à realidade? Olhemos para trás e vejamos o papel feminino na vida pública de cada país.

Comecemos pelo direito de voto.
Aqui, em Portugal, só depois do 25 de Abril é que as mulheres puderam votar em pleno direito. Antes, a partir de 1931, apenas as possuidoras de um grau universitário ou o secundário concluído podiam votar; os homens, esses, bastava que soubessem ler e escrever.
A inteligência feminina, para se ter nela confiança, tinha de se apresentar com estudos universitários ou um curso liceal, ora bem!...

Na Itália, depois de várias tentativas feitas em 1881 e 1907, só obtiveram o voto em 1946. A civilizada França, em 1944; a civilizadíssima Suíça, em 1983 (embora, em questões federais, pudessem votar desde 1971 - mas que generosidade!)

Honra à Nova Zelândia! Foi o primeiro país do mundo a conceder voto às mulheres em 1886.
Na Europa, a Finlândia inaugurou a série em 1906.

Não vale a pena continuar a elencar outros países que se “dignaram” facultar às mulheres os direitos a que tinham direito. Certamente que nenhum deles primou por tempestividade.

Quanto a cargos políticos, em todas as nações do mundo, quantas são as mulheres chefes de estado? Só conheço o Chile, Filipinas, Finlândia, Irlanda, Letónia, Libéria.

Como chefes de governo também não abundam: Alemanha, Bangladesh, Nova Zelândia, Moçambique, São Tomé e Príncipe (salvo erro).

Perante tais estatísticas, pergunta-se: são as mulheres que viram as costas e não se sentem com capacidade para altos cargos políticos ou, vice-versa, são os eleitores, por atavismo, que entendem só a parte masculina como mais bem talhada para estas posições?
São as mulheres que não avançam com determinação e resignam-se a cargos com menos relevo ou são os homens dos aparelhos que fazem barreira? Propendo para esta última hipótese!

Todavia, devo reconhecer que vigora bastante ignorância política no mundo feminino. Quando ainda escuto senhoras – não analfabetas e até com umas certas pretensões – exprimirem indiferença pela política, rematando, frequentemente: “a política é para os homens”, confesso que devo refrear o meu desagrado diante de tanta estupidez.

Concluindo, bem venham as quotas. Aliás, tanto valem os 33% para mulher como para homem, e assim é que deve ser.
Ao menos que sirvam para modernizar mentalidades rançosas e criar a habituação de olhar para a política como um interesse e empenho geral, sem excepções.
Depois, que se proceda à selecção dos melhores… ou dos mais ambiciosos… ou mais protegidos nos aparatos partidários… ou mais bem posicionados nos favores de quem move os cordelinhos. Tudo isto também é política, of course.
Alda M. Maia

3 Comments:

At 8:07 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Admiro muito a tua maneira de escrever e de pensar, portanto mereces aplausos da minha parte. Sou estudante universitária (do curso de Relações Internacionais), revolucionária, feminista e, em geral, inconformista.
O teu blog merece um link! Colocá-lo-ei no meu blog.
Cumprimentos. :)

 
At 6:49 da tarde, Blogger Alda M. Maia said...

Surpreendida com o teu comentário! Como descobriste este blog?
Muito obrigada ~por quanto escreveste no comentário
Alda

 
At 7:44 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Sinceramente já nem me lembro como descobri a existência do teu blog. Deve ter sido através de outros blogs. :P
Cumprimentos!

 

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