segunda-feira, agosto 01, 2011

ELEIÇÕES, QUANTA INDECÊNCIA EM TEU NOME!

As pessoas democraticamente conscientes vêem o acto electivo como um inalienável direito, importante e imprescindível, a fim de eleger ou renovar os gestores da coisa pública. Vota-se com a esperança de que o interesse geral dominará todas as preocupações dos novos governantes. Assim o exige quem os elege; assim o impõe a Constituição de cada país.
Esquecemos, todavia, que em cada legislatura e à luz do que se vai observando, o mandato desenvolve-se em dois tempos bem distintos.

No primeiro, procura-se pôr em prática os programas da coligação ou partido vencedor.
Parte-se com muito entusiasmo e grande movimento de acção. Frequentemente trai-se o que se prometeu, mas as realidades do que se encontra não são as esperadas (justificação clássica). Distribuem-se encargos a competentes e a quem deve ser premiado, e mãos à obra.

Entra-se no segundo tempo – não raramente, a meio do mandato - mas já com o pé na rampa do período de novas eleições. A orquestra muda de ritmo e de melodia.
Se antes se era determinado a pôr em prática ideias inovadoras, a reestruturar o que não funcionava, a eliminar o que é inútil e prejudicial para o equilíbrio do erário público, a financiar o que daria riqueza e lustro ao país, esses impulsos esvaem-se.

É forçoso ganhar as novas eleições, ter como certa a reeleição. Logo, preocupemo-nos em não desagradar ao nosso eleitorado natural e procuremos captar a simpatia do eleitorado adversário. Paralelamente, evitemos decisões que, embora benéficas para a coisa pública, podem desagradar a certos interesses sectoriais, a personagens que atraem votos.

Claro está que tudo isto é feito no meio de grandes ostentações de empenho governativo. Porém, decisões sérias, corajosas e profícuas para o bem do país ficam encalhadas. Interesses mais altos se levantaram: os interesses partidários.

Ainda estou para ver um governo corajoso que mande para as urtigas o desejo de ser reeleito e proceda com determinação no caminho de reformas urgentes e de prudência nos gastos, quando não suportáveis pela receita. Um governo, enfim, que pense única e simplesmente no alcance de uma superior administração. Alguma vez o verei?

Olhemos outro aspecto da questão. Há países cujos governos vivem em campanha eleitoral permanente.
Podemos citar dois: a Itália e os Estados Unidos. Deixemos o primeiro, pois de há vinte anos a esta parte, tal estado de coisas tornou-se endémico.
É o que se passa, hoje, nos Estados Unidos da América, que me deixa escandalizada.

O espectáculo indecente que o Congresso tem dado ao mundo é absolutamente injustificável: sob o ponto de vista financeiro, social e de respeito por quem investe nos títulos de Estado USA.
Pode-se dizer que é um retrato perfeito do que é a «não política» e ao que pode levar os extremismos de irresponsáveis.

Os republicanos moderados e sérios não se envergonham de ter como parceiros os primitivos que se instalaram no “Tea Party”, os principais instigadores de toda esta loucura?
Que sensibilidades sociais são estas que têm como ponto de honra defender o interesse dos opulentos e hostilizar as despesas sociais em favor da classe média e dos desprotegidos?
Tenho uma grande, enorme dificuldade a compreender estas mentalidades.

Os ultras da direita americana não suportam um presidente que não se enquadre no famoso WASP (White, Anglo-Saxon, and Protestant). O actual presidente trai a primeira condição. Que horror! Não é branco.
Deve ser contestado e, se possível, espezinhado em todos os modos. Efectivamente, nada lhe pouparam.

No Congresso, desde o início do mandato de Obama, os Republicanos e os inseparáveis borrachões de chá azedo têm mantido o tal clima de eleições permanentes. Pensar em questões úteis ao povo americano, são bagatelas que não merecem esforço nem empenho.
Segundo dizem os entendidos, neste último caso conseguiram criar um novo princípio: o poder de chantagear o presidente no que concerne a dívida pública.

“Recorde-se que a operação «Destruí Obama» estava no centro do assalto da extrema-direita dos fanáticos do «Tea Party», no terreno do défice  orçamental e da dívida pública”. – Vittorio Zucconi
Alguém duvidava?!!

As notícias de hoje informam que os dois partidos – Democrático e Republicano – chegaram a um acordo, embora ainda tenha de passar pelo Congresso.
Todos cantam vitória. Para já, evitou-se o papão default e o caos que daí adviria, mas quem pagou o maior tributo?
Aumentou-se o tecto das despesas, mas os intocáveis, os ricos, continuam isentos de novas contribuições. Os únicos derrotados, portanto, foram a equidade e o bom senso.