segunda-feira, junho 01, 2015

SÍRIA, CONVIVÊNCIAS MILENÁRIAS

A longa entrevista - mais de uma hora - que o líder de Al-Nusra, ramo de Al-Qaeda na Síria, concedeu à TV Al-Jazeera, no passado dia 28 de Maio, fez retornar a minha atenção sobre a tragédia que se consuma, desde 2011, naquele país.

Vi, por alguns minutos, essa entrevista do chefe de Al-Nusra, Mohammed al-Golani. Sempre de costas voltadas, não foi possível ver-se-lhe o rosto, mas muito explícito na mensagem de pacificação que quis enviar ao Ocidente:
Assad está prestes a cair, seremos nós a governar a Síria e não atacaremos o Ocidente. A nossa única missão é abater o regime e derrotar os agentes, começando do Hezbollah. Talvez Al-Qaeda tenha planos contra USA, mas não aqui na Síria.
Al-Nusra não tem planos nem ordens para atacar o Ocidente. É Al-Zawahiri que nos dá as directivas e não temos recebido pedidos claros para usar a Síria como plataforma para ataques contra os Estados Unidos e a Europa, porque não queremos sabotar a missão de abater o regime de Assad.”
Explicou que Al-Nusra não é aliada do autoproclamado “Estado Islâmico”.

Pergunta-se, é gente em quem se possa confiar? Embora provindas de um líder de Al-Qaeda, são mensagens dignas de atenção? Penso que a prudência e todas as cautelas serão sempre escassas e mais que oportunas.

Lembrando o que era a Síria, pensando nas esperanças que acompanharam, em 2000, a subida ao poder de Bashar Al-Assad, esperava-se que este iniciasse e prosseguisse nas suas promessas de reformador. Após algumas pequenas reformas, porém, o autoritarismo ressurgiu, exactamente como nos tempos do antecessor, Hafez Assad.
Em 2011, a resposta brutal que deu aos manifestantes contra o regime, isto é, a violenta repressão contra a “primavera síria”, lançou o país numa guerra civil que se tem prolongado até hoje e ninguém se atreve a prever que género de barbárie se desenvolverá na civilizada Síria; os bárbaros do “Estado islâmico” já se instalaram em grande parte do território, exactamente como sucede não Iraque.

Em quase 18 milhões de habitantes, a guerra civil síria, com o auxílio dos piores grupos jihadistas que ali afluíram, já provocou 200 mil vítimas e 9,5 milhões de refugiados.

Embora, e infelizmente, sob um regime ditatorial feroz contra os opositores, o que era a Síria? Acima de tudo, um país onde convivências milenárias, de etnias e religiões, eram naturais e pacíficas. “Era garantida a liberdade de culto, embora a Constituição previsse que o presidente devesse ser de religião islâmica”, a religião maioritária.
Nessa maioria, 64% é de fé sunita; 26% pertence a outras correntes islâmicas, como os drusos e os alauitas (um ramo dos xiitas).

Os cristãos são 10%, metade dos quais aderente à Igreja Ortodoxa grega de Antioquia. Os demais cristãos pertencem à Igreja Católica nas suas várias comunidades (maronitas, sírios, católicos arménios, caldeus, etc.); Além de outras Igrejas cristãs, existem pequenas minorias protestantes. Ficaram no país poucas dezenas de judeus que vivem em Damasco e outras duas cidades.
A maioria da população, 95%, é constituída por árabes e arameus arabizados. Existem depois curdos, arménios, turcos e outros povos.

A propósito do sistema de ensino na Síria. “A instrução é livre em todas as escolas públicas e é obrigatória até ao 9.º grau”, quer para o sexo masculino, quer para o feminino.
De como é descrito o sistema de educação sírio, deduz-se que é idêntico ao ensino ocidental. Aliás, dizem que se baseia sobre o velho sistema francês.
Quantos países islâmicos apresentam este grau de desenvolvimento, no respeito, insisto, da salvaguarda de convivências milenárias de etnias e religiões díspares?  

A Rússia é aliado deste desgraçado país. Juntamente com as armas que lhe fornece, por que o não auxiliou a repelir os extremistas islâmicos? Porque os soldados russos disponíveis estavam muito ocupados na Ucrânia?

E o mundo ocidental, perante a avançada terrorista no Médio e Próximo Oriente e a perseguição aos cristãos, seus correlegionários (assim como a outras minorias), julga-se intocável, apesar de certas experiências já vividas?
Continua cego, surdo e palrador, mas sempre sem qualquer intenção solidária e decisiva.