segunda-feira, junho 13, 2016

AINDA SOBRE O REINO UNIDO

Sim, ainda sobre o que se escreve a propósito do referendo inglês, o qual se efectuará dentro de uma dezena de dias.
Aprecio a leitura das múltiplas opiniões e comentários sobre este tema, e quanto mais leio, mais aumentam as minhas perplexidades. Aliás, acho este referendo tão parvo como inteiramente fora do bom senso. Que perdeu a Grã-Bretanha com a entrada na União Europeia?

A este respeito, deliciou-me o artigo de opinião de Stefano Stefanini, no jornal “La Stampa” de ontem.
Em vez de quaisquer outras minhas considerações, agrada-me muito mais analisar, traduzindo, a quase totalidade de uma opinião da grande competência. Ademais, recheada de argumentos interessantíssimos. Há alguns, porém, que desejaria comentar. Mas ficará para uma próxima vez.

********** 

“POR QUE O REINO UNIDO DEVE PERMANECER NA UE”

"Navegando sem bússola, Europa e USA aproximam-se de duas passagens decisivas: o referendo da Grã-Bretanha do dia 23 sobre a União; o voto americano de oito de Novembro entre Clinton e Trump. Ambas se arriscam  a quebrar, do interior, a capacidade de um Ocidente ao qual não faltam, certamente, as ameaças e desafios externos: desde a Síria à Rússia; do Estado Islâmico à China. Como sempre, o inimigo pior é o que está dentro. Eis por que se torna necessário temê-lo."

"(…) Seja o ingresso de Trump na Casa Branca, seja a saída do reino Unido da Europa marcariam um ponto de não regresso. Em Cannes, George Cloony disse que Donald Trump não será presidente dos Estados Unidos. Na série “Serviços de Urgência”, nunca errava uma diagnose, mas já passou bastante tempo."

"As sondagens sobre o Brexit oscilam entre 40% pró e 40% contra. Decidirão os indecisos. Quem vota pela União Europeia vota razão e lucidez; os partidários do Brexit, com paixão e frustração. Pouco tranquilizante. Além disso, as sondagens são falseadas quando os entrevistados mentem, porque se envergonham de admitir o que farão no interior das urnas."

"Brexit e Trump são desastres anunciados, mas evitáveis. O êxito está, democraticamente, nas mãos dos eleitores britânicos e americanos. O resto do Ocidente não vota, mas pode fazer-se ouvir. As nossas vozes, preocupações e sensibilidades pesam na rede das interdependências e dos media sociais; os nossos governos estão ligados por fio duplo. Também o resto do mundo teme o dúplice risco Brexit-Trump. Com qualquer excepção míope à volta dos muros do Kremlin, o nervosismo adverte-se de Pequim a Santiago. Mas, seria o Ocidente, in primis, a perder, atirando para as urtigas os seus pontos de força: a União Europeia e a Comunidade Atlântica. Imperfeita, a primeira; encrespada, a segunda, mas permanecem como os nossos fundamentos."

"Com a aproximação do ano 2000 temia-se a queda dos sistemas informáticos, programados com duas cifras, que não teriam reconhecido o novo século e milénio. As consequências teriam sido catastróficas.
Não sucedeu nada e o temidíssimo “Y2K bug” foi consignado ao relicário das curiosidades históricas. Mas somente porque tivemos medo."

"Não de menor receio necessitamos hoje. De Trump deverão cuidar, sobretudo os americanos. Faltam cinco meses. Pelo contrário, Brexit decidir-se-á dentro poucos dias.
O eleitorado britânico está submerso por avisos de borrasca. Londres tem muito a perder com a saída da UE. Quem vota pode ignorá-lo, mas foi avisado.
Menos claro, para os europeus, quanto deva perder a União Europeia. Não somente porque a saída de Londres deixaria uma Europa geopolítica, militar e economicamente mais débil, mas também pelo papel britânico dentro da União, determinante em conter os reflexos centralizadores e dirigistas de Bruxelas. Paralelamente, sem Londres a predominâncias alemã – não por vontade de Berlim, mas por inércia – encontraria menores contrapesos.
A Itália perderia a orla da Mancha que, frequentemente, nos evita a escravidão de alinhamentos rígidos."

"Que Brexit aplane o caminho para uma Europa “federal” é uma pia ilusão. Com quem? Com a Áustria que ameaça muros no Brennero? Com a Holanda que repele, por referendo, o inócuo acordo de associação com a Ucrânia? Quais opiniões públicas seguiriam, a começar pela italiana? Quantas outras partes perderia a União Europeia? Quem pararia e emulação e o efeito dominó das secessões?"

"Ninguém mais do que Ulisses encarna o espírito da cultura e civilização ocidentais. Contudo, Já não estamos na época homérica, mas no século XXI. Para superar a Cila de Brexit e as Caríbdis de Donal Trump, o Ocidente deve esperar que o ADN permaneça igual."
De Stefano Stefanini; "La Stampa"  -  12/06/2016